O Sopro da Matinta

Capítulo 3 — A Dança das Sombras no Curral Abandonado

por Stella Freitas

Capítulo 3 — A Dança das Sombras no Curral Abandonado

A notícia do homem misterioso que apareceu em Vila das Almas e parecia ter uma conexão com Cecília se espalhou como fogo em palha seca. O curiosidade se misturava ao temor. Iago, como se chamava, era uma figura enigmática, que aparecia e desaparecia sem ser notado, seus olhos escuros pareciam carregar segredos de eras, e sua voz, grave e melodiosa, tinha um encanto que desarmava. Ele não parecia pertencer àquela terra, mas, de alguma forma, parecia conhecê-la mais do que qualquer um de seus habitantes.

Cecília, por sua vez, sentia uma mudança sutil em si mesma. A posse do amuleto da Moça Chorona parecia ter aberto uma nova dimensão em sua percepção. Ela notava os detalhes que antes lhe escapavam: o padrão das folhas, os murmúrios do vento, as cores mais vibrantes da mata ao amanhecer. A aura de mistério que pairava sobre Iago, ao invés de assustá-la, a atraía, despertando nela uma curiosidade insaciável.

Naquela noite, o ar estava pesado, prenunciando uma chuva que teimava em não cair. As nuvens escuras cobriam a lua, mergulhando Vila das Almas em uma escuridão quase total. Cecília estava em sua casa, sentada à mesa da cozinha, tentando decifrar os símbolos gravados no amuleto, que agora usava em um cordão de couro ao redor do pescoço. A pedra opaca parecia pulsar com uma luz fraca, quase imperceptível, mas que a hipnotizava.

De repente, ouviu um som baixo e rítmico vindo de fora. Um tambor. Um tambor que parecia pulsar no ritmo de seu próprio coração. Era um som primitivo, que invocava algo antigo, algo sombrio. Ela se levantou, a lamparina tremendo em sua mão. A janela da cozinha dava para um velho curral abandonado nos arredores da aldeia, um lugar que todos evitavam, diziam que era assombrado por espíritos inquietos.

O tambor ficava mais alto, mais insistente. Cecília sentiu um arrepio na espinha. Era um chamado. Ela sabia que era perigoso, que os avisos de sua mãe sobre os perigos da noite e das influências espirituais ressoavam em sua mente. Mas o amuleto em seu peito parecia vibrar em resposta ao som, atraindo-a para fora.

"Não devo ir", murmurou para si mesma, mas seus pés já a levavam em direção à porta.

Ao sair, o ar frio da noite a envolveu. O cheiro de terra molhada e de algo mais, algo metálico e forte, pairava no ar. Ela se dirigiu lentamente em direção ao curral. A luz bruxuleante da lamparina mal conseguia dissipar as sombras que dançavam ao seu redor. O som do tambor agora era ensurdecedor, e ela podia ouvir outros sons: um canto gutural, um chocalhar de objetos, e um riso rouco que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

Ao se aproximar do curral, escondeu-se atrás de um arbusto denso e espiou. O que viu a fez prender a respiração. No centro do curral abandonado, sob a luz fantasmagórica das nuvens, uma figura dançava freneticamente. Era Iago. Ele estava sem o chapéu, seus cabelos escuros e revoltos emolduravam um rosto sério, concentrado. Seus movimentos eram fluidos, poderosos, como um lobo em caça. Em suas mãos, ele segurava um pequeno tambor de couro batido com uma baqueta, ditando o ritmo que ecoava pela noite.

Ao redor dele, sombras pareciam ganhar forma. Formas sinuosas, etéreas, que dançavam ao som do tambor. Não eram pessoas. Eram figuras indistintas, feitas de fumaça e escuridão, que se contorciam e se entrelaçavam, como se estivessem vivas. A energia no ar era palpável, carregada de uma força antiga e selvagem.

Cecília sentiu um arrepio percorrer seu corpo, mas não era apenas medo. Havia uma fascinação estranha, uma sensação de que estava testemunhando algo primordial, algo que a natureza guardava em seus segredos mais profundos.

De repente, Iago parou de dançar. O tambor silenciou. As sombras se dissolveram instantaneamente, como se nunca tivessem existido. Ele ergueu a cabeça e seus olhos escuros encontraram os de Cecília, mesmo ela estando escondida.

"Você veio", disse ele, a voz calma, mas com um tom de quem esperava por ela.

Cecília saiu de seu esconderijo, o coração batendo forte. "O que é isso, Iago? Que sombras são essas?"

Iago caminhou em sua direção, a sombra do curral parecendo se estender para engoli-lo. "São os ecos da terra, Cecília. Os espíritos que habitam os lugares esquecidos. Os restos de energias que nunca se dissipam." Ele parou a poucos passos dela. "Eu os convoco. Eu os comando. Eles respondem ao chamado da força que une este lugar."

"E o que o senhor está buscando com isso?", perguntou Cecília, a curiosidade tingida de apreensão.

"A compreensão", respondeu Iago. "A força que move as coisas. A conexão entre o mundo visível e o invisível. E, talvez, uma resposta." Ele fez uma pausa. "Um aviso."

"Um aviso sobre o quê?", insistiu Cecília.

Iago olhou para o amuleto em seu pescoço, que parecia brilhar fracamente na escuridão. "Sobre a escuridão que se aproxima. Sobre as forças que buscam desequilibrar o que está em paz." Ele olhou novamente para ela, seus olhos escuros penetrando em sua alma. "Sua mãe sentia isso, Cecília. Essa energia inquieta. Ela sabia que algo estava mudando."

"O senhor sabe o que aconteceu com ela?", perguntou Cecília, a voz embargada pela esperança e pelo desespero.

"Sei que ela não se foi sem deixar um rastro", disse Iago. "E sei que o amuleto que você carrega é parte desse rastro. Ele é uma chave. E eu sou o guardião dos caminhos que levam à compreensão dessa chave." Ele estendeu a mão. "Permita-me mostrar a você."

Cecília hesitou por um momento. O homem era um enigma, sua presença era perturbadora, mas havia algo em seus olhos, uma sinceridade sombria, que a fazia confiar nele. Ela sentiu que, em suas mãos, a verdade sobre sua mãe não seria apenas um conto de fadas, mas uma realidade que ela poderia desvendar.

"Eu confio no senhor", disse ela, sua voz firme apesar do tremor interno.

Iago pegou sua mão. Seus dedos estavam frios, mas sua pegada era forte, firme. Ele a guiou para dentro do curral abandonado. O chão estava coberto de folhas secas e detritos. As antigas cercas de madeira rangiam ao vento que agora começava a soprar mais forte.

"Este lugar foi palco de muitas histórias", disse Iago. "Histórias de dor, de medo, mas também de força e de sacrifício. E os espíritos… eles guardam a memória de tudo." Ele parou no centro, onde antes dançara. "O amuleto que você carrega reage a essa memória. Ele pulsa quando a energia se intensifica."

Cecília sentiu o amuleto em seu peito esquentar. A pedra opaca brilhou com mais intensidade, projetando uma luz fraca sobre seus rostos. "Está… está quente", disse ela.

"É o chamado", respondeu Iago. "Um chamado para o passado. Um chamado para a verdade." Ele olhou para as ruínas do curral. "Sua mãe costumava vir aqui, não é? Não apenas para buscar ervas, mas para encontrar um tipo diferente de silêncio."

Cecília assentiu, surpresa. "Sim. Ela dizia que aqui se sentia mais perto de algo… de algo que não podia encontrar em outro lugar."

"Ela buscava a conexão", disse Iago. "A conexão com as raízes. Com a força que pulsa sob a terra. E ela encontrou algo. Ou alguém."

O vento aumentou, levantando poeira e folhas. As sombras dançavam de forma frenética ao redor deles, como se estivessem em um palco. Cecília sentiu uma presença. Não eram as sombras comandadas por Iago, eram outras. Mais sombrias. Mais ameaçadoras.

"O que são elas?", perguntou Cecília, apertando a mão de Iago.

"São os guardiões dos segredos mais profundos", respondeu Iago, sua voz soando grave e distante. "Aqueles que não querem que a verdade venha à luz." Ele olhou para Cecília, seus olhos escuros faiscando. "Sua mãe descobriu algo que eles não queriam que ela soubesse. E eles a levaram."

Aquelas palavras atingiram Cecília como um golpe. Levaram. Não se perdeu. Não se afogou. Levaram.

"Quem são 'eles'?", perguntou Cecília, o medo se misturando a uma raiva crescente.

"Forças antigas", respondeu Iago, sua voz soando mais sombria do que nunca. "Que se alimentam do medo e do esquecimento. Que se escondem nas sombras e sussurram mentiras. Eles não querem que você descubra a verdade sobre sua mãe."

De repente, um dos espíritos, mais denso e sombrio que os outros, avançou em direção a eles. Era uma figura disforme, com olhos vermelhos que brilhavam na escuridão. Cecília soltou um grito, e Iago a puxou para trás, protegendo-a com seu corpo.

"Não tema, Cecília", disse Iago, sua voz agora cheia de uma força que parecia emanar da própria terra. "Você não está sozinha."

Ele ergueu a mão livre e, para o espanto de Cecília, um brilho azul intenso emanou de seus dedos, formando uma barreira protetora ao redor deles. O espírito sombrio recuou, sibilando, incapaz de penetrar a luz.

A dança das sombras havia se tornado uma batalha. E Cecília percebeu que sua busca pela verdade sobre sua mãe a havia levado a um mundo onde o perigo era real, e onde as forças do bem e do mal lutavam em segredo, sob o véu da noite amazônica.

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