O Sopro da Matinta
Capítulo 4 — A Canção do Rio e o Encontro com o Desconhecido
por Stella Freitas
Capítulo 4 — A Canção do Rio e o Encontro com o Desconhecido
A noite em Vila das Almas parecia ter decidido guardar seus segredos mais profundos para Cecília e Iago. O vento, que antes ameaçava com a fúria de uma tempestade, agora se acalmou, deixando para trás um silêncio carregado de expectativa. As sombras que haviam dançado de forma ameaçadora no curral abandonado pareciam ter recuado, vencidas pela força desconhecida que emanava de Iago e pela coragem recém-descoberta de Cecília.
Eles permaneceram por alguns instantes na quietude que se seguiu à batalha, a mão de Iago ainda segurando a dela, transmitindo uma força que parecia percorrer as veias de Cecília. A luz azul que ele havia conjurado se dissipou lentamente, deixando apenas o brilho tênue do amuleto em seu pescoço, que parecia ter se acalmado também.
"Eles… eles não querem que eu descubra?", perguntou Cecília, a voz ainda um pouco trêmula. "Não querem que eu saiba o que aconteceu com minha mãe?"
Iago assentiu, seus olhos escuros fixos nos dela. "A verdade, Cecília, pode ser uma arma perigosa para aqueles que prosperam na escuridão e no esquecimento. Sua mãe era uma guardiã. Ela sentia a desarmonia, as ameaças que se escondiam nas sombras. E ela descobriu algo. Algo que perturbou o equilíbrio deles."
"Mas o quê?", insistiu Cecília, o desejo de saber superando o medo. "O que ela descobriu?"
"Isso é o que precisamos descobrir", disse Iago. "E a resposta não está em Vila das Almas, não completamente. Ela está nas profundezas deste rio, no coração da floresta, em lugares que os homens comuns temem pisar." Ele soltou a mão dela, mas permaneceu perto. "O amuleto é a chave, Cecília. Ele ressoa com a energia da sua mãe. E com a energia daqueles que a levaram."
Ele olhou para o rio, cujas águas escuras pareciam um espelho negro sob o céu nublado. "O rio também guarda segredos. Ele é o fluxo da vida, mas também o caminho para o desconhecido. E é para lá que devemos ir."
Cecília sentiu um arrepio de apreensão, mas também uma determinação férrea. Sua mãe, a mulher que ela tanto amava e sentia falta, havia sido levada, e agora ela tinha uma pista, um caminho. E Iago, esse homem misterioso e poderoso, parecia ser o único capaz de guiá-la.
"O senhor quer dizer que devo ir para o rio?", perguntou.
"Não apenas para o rio, mas através dele", respondeu Iago. "Existem lugares onde o véu entre os mundos é mais fino. Onde os ecos do passado se tornam mais claros. E seu amuleto vai nos guiar."
Ele se virou para a margem do rio, onde uma pequena canoa de madeira estava ancorada. Era uma canoa simples, como as que os pescadores usavam, mas parecia estranhamente convidativa.
"Você sabe remar?", perguntou Iago.
Cecília assentiu. "Minha mãe me ensinou."
"Então vamos", disse Iago, com um tom de urgência.
Enquanto remavam rio adentro, a noite parecia se aprofundar. As margens da floresta, antes familiares, agora pareciam mais densas, mais selvagens. Os sons da noite, que antes eram apenas ruídos, agora pareciam carregar significados ocultos. O murmúrio das águas, o canto de algum pássaro noturno, o farfalhar das folhas – tudo parecia compor uma sinfonia antiga e misteriosa.
O amuleto no pescoço de Cecília começou a pulsar com mais intensidade. Uma luz suave emanava dele, iluminando fracamente o rosto de Cecília e o de Iago. Ele a guiava.
"Ele está nos chamando", disse Cecília, a voz cheia de assombro.
"Sim", respondeu Iago, seus olhos escuros refletindo a luz do amuleto. "Ele sente a presença daqueles que levaram sua mãe. Ou, mais precisamente, ele sente a energia que eles deixaram para trás."
Eles navegaram por um tempo que Cecília não soube definir. Parecia que o tempo havia parado, suspenso no silêncio do rio. De repente, a correnteza começou a mudar, tornando-se mais forte, puxando-os para uma área onde as árvores se fechavam ainda mais sobre o rio, criando um túnel de sombras.
"Estamos chegando", disse Iago, a voz baixa e intensa.
Cecília sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A água parecia mais escura, quase negra, e o ar ficou mais frio. Um cheiro peculiar, uma mistura de terra úmida e algo doce e adocicado, pairava no ar.
Então, ela viu. À frente, onde o rio se abria em um pequeno igapó, uma luz suave e etérea pairava no ar. Era uma luz azulada, pulsante, semelhante à que Iago havia conjurado, mas mais natural, mais orgânica. E ao redor dessa luz, figuras começaram a se formar. Não eram as sombras ameaçadoras do curral. Eram figuras translúcidas, quase etéreas, que pareciam dançar suavemente na água, como se estivessem em transe.
"O que são elas?", sussurrou Cecília.
"São os ecos da floresta", respondeu Iago. "Os espíritos guardiões dos lugares sagrados. Eles são atraídos pela energia do amuleto. E pela verdade que ele busca."
Eles se aproximaram da luz. As figuras translúcidas se afastaram um pouco, como se estivessem cedendo espaço. No centro da luz, Cecília viu algo que a fez prender a respiração. Uma mulher. Com longos cabelos escuros, um vestido branco esvoaçante, e um olhar triste, mas ao mesmo tempo sereno. Era… era sua mãe.
"Mãe!", gritou Cecília, o coração disparado.
A figura da mulher se virou lentamente em sua direção. Seus olhos, embora etéreos, pareciam cheios de um amor profundo e de uma saudade imensa. Ela abriu um sorriso, um sorriso que Cecília conhecia tão bem, mas que agora parecia tingido de uma melancolia antiga.
"Cecília...", sussurrou a figura, a voz um eco distante, mas inconfundível.
Cecília não conseguia se mover. Estava hipnotizada pela visão de sua mãe. Iago a segurou firme, impedindo que a canoa se aproximasse demais da luz.
"Ela está presa, Cecília", disse Iago, a voz carregada de pesar. "Presa entre dois mundos. A energia que a mantém aqui é forte. E aqueles que a trouxeram para cá… eles a aprisionaram."
"Quem são eles?", perguntou Cecília, a voz embargada.
"São os Sombrios", respondeu Iago. "Seres que se alimentam da dor e do desespero. Eles a atraíram para cá com uma promessa, e a aprisionaram com uma mentira."
A figura de sua mãe estendeu a mão etérea em direção a Cecília. Cecília sentiu uma pontada de dor ao perceber que não podia tocá-la.
"Mãe, eu… eu vou te tirar daqui!", prometeu Cecília, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
"O amuleto…", sussurrou a figura de sua mãe, sua voz cada vez mais fraca. "O amuleto é a chave… Ele revela a verdade…"
A luz azulada começou a pulsar com mais força, como se estivesse reagindo às palavras. Os espíritos guardiões ao redor pareciam mais agitados, como se estivessem tentando proteger a aparição.
Iago olhou para Cecília, seus olhos escuros cheios de uma determinação sombria. "Eles estão ouvindo, Cecília. Eles sabem que você está perto da verdade. Precisamos agir rápido."
Ele se virou para a aparição de sua mãe. "Sua filha está aqui. Ela tem a chave. Diga-nos o que você descobriu. Diga-nos quem são eles."
A figura de Dona Aurora hesitou por um momento, como se estivesse lutando contra uma força invisível. Finalmente, ela falou, sua voz um sussurro carregado de dor e revelação.
"O Sopro… O Sopro da Matinta… não é apenas um vento. É… é um véu. Eles o usam… para esconder… para controlar…"
A frase ficou suspensa no ar. A luz azul começou a vacilar, como se estivesse perdendo força. As figuras translúcidas dos espíritos guardiões pareciam encolher, desaparecendo nas sombras.
"Eles estão interferindo!", disse Iago, sua voz tensa. "Eles não querem que você revele mais nada!"
Cecília sentiu um aperto no peito. Sua mãe estava ali, tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante. E a verdade parecia escapar por entre os dedos.
"Mãe! O que mais?", implorou Cecília.
A figura de Dona Aurora tentou falar, mas apenas um gemido baixo escapou de seus lábios. Seus olhos, antes cheios de amor, agora transpareciam um medo profundo. A luz azul vacilou violentamente e, de repente, tudo desapareceu.
O igapó ficou escuro e silencioso. A figura de sua mãe se foi. A luz etérea sumiu. Apenas as águas escuras do rio e a floresta densa permaneciam. O amuleto em seu pescoço esfriou, sua luz se apagou.
Cecília olhou em volta, desolada. Havia chegado tão perto, tão perto de sua mãe, de uma resposta. E agora, tudo havia sumido, como um sonho desfeito ao amanhecer.
"Onde ela foi?", perguntou Cecília, a voz embargada pelas lágrimas.
Iago olhou para o local onde a luz estivera. Sua expressão era sombria. "Eles a levaram de volta. Para as profundezas onde os segredos são guardados. Mas ela te deu uma pista, Cecília. Uma pista crucial."
Ele olhou para o amuleto agora inerte em seu pescoço. "O Sopro da Matinta… um véu. Eles o usam para esconder e controlar. Sua mãe estava prestes a nos contar quem são eles. E eles não podiam permitir isso."
Cecília sentiu uma raiva fria se instalar em seu peito. A dor da perda se misturava à determinação de descobrir a verdade. Ela não descansaria até saber quem eram esses "Sombrios" e por que haviam levado sua mãe.