Meu Amor, Seu Vilão de A a Z
Capítulo 8 — O Jantar de Negócios e a Tensão do Jogo
por Priscila Dias
Capítulo 8 — O Jantar de Negócios e a Tensão do Jogo
O convite para o jantar era formal, mas a atmosfera que envolvia a mansão dos Valença era tudo menos isso. Clara sentia-se um peixe fora d'água, o vestido de seda elegante e o salto alto parecendo insuficientes para que ela se sentisse à altura da opulência que a cercava. O mármore polido refletia as luzes cristalinas dos lustres, e o aroma de flores exóticas pairava no ar, misturando-se com o som de conversas animadas e risadas distantes.
Victor a recebeu na entrada da vasta sala de jantar com um sorriso que, dessa vez, não parecia esconder nada. Ele estava impecável em um terno escuro, a gravata perfeitamente ajustada. Seus olhos azuis percorreram Clara de cima a baixo, e um brilho de aprovação surgiu em seu olhar.
"Clara. Você está deslumbrante", disse ele, a voz grave, mas com um tom de sinceridade que a fez corar.
"Obrigada, Victor", respondeu ela, tentando esconder o nervoso. "É uma honra estar aqui."
"A honra é minha", ele respondeu, estendendo o braço para guiá-la. "Por favor, venha. Nossos convidados já chegaram."
O jantar reunia a nata da sociedade empresarial, figuras de poder e influência que Clara conhecia apenas pelas revistas e jornais. Ela se sentiu como uma intrusa, uma observadora em um mundo que não lhe pertencia. Victor, no entanto, parecia transitar por aquele ambiente com a naturalidade de um rei em seu reino. Ele a apresentava às pessoas com uma elegância impecável, cada palavra cuidadosamente escolhida, projetando uma imagem de sucesso e sofisticação.
Durante o jantar, a conversa girava em torno de negócios, de investimentos, de estratégias. Clara, sentada ao lado de Victor, ouvia atentamente, tentando absorver o máximo possível. Ela percebeu que, por trás da frieza calculista que ele projetava, havia uma mente brilhante, capaz de antecipar cada movimento, de analisar cada risco. Era fascinante e, ao mesmo tempo, um pouco assustador.
Em um momento de pausa na conversa, Victor se inclinou em direção a Clara. "Você está gostando?", perguntou ele, um brilho divertido em seus olhos.
Clara sorriu. "É... intenso. Mas fascinante." Ela olhou ao redor. "Você realmente domina esse mundo, Victor."
"Eu faço o que preciso fazer para sobrevú-lo", respondeu ele, a voz um pouco mais sombria. "E para prosperar."
Houve um silêncio, preenchido pela música suave que tocava ao fundo. Clara sentiu o olhar de Victor sobre ela.
"Você me intrigou desde o primeiro dia, Clara", disse ele, a voz baixa, pessoal. "A sua paixão pela arte, a sua força interior. Algo em você me atraiu, mesmo sabendo que você era... diferente de tudo que eu conheço."
Clara sentiu seu coração acelerar. As palavras dele eram como um bálsamo, mas também como um alerta. Ela sabia que Victor não era um homem de sentimentalismos fáceis. Cada palavra dele tinha um propósito.
"E o que você faz para sobreviver, Victor?", perguntou Clara, a curiosidade vencendo a cautela. "O que te trouxe a esse ponto?"
Victor ergueu a taça de vinho, observando o líquido escuro dançar no vidro. "Eu nasci em um mundo onde a fraqueza não é perdoada. Onde você tem que lutar por cada centímetro de espaço. Eu vi meu pai ser destruído pela ganância e pela traição. E eu jurei que isso nunca aconteceria comigo." Ele a olhou diretamente nos olhos. "Eu aprendi a jogar o jogo, Clara. E eu sou muito bom nisso."
A confissão, mesmo que breve, revelou uma faceta de Victor que Clara ainda não conhecia. Havia uma dor antiga ali, uma cicatriz profunda que o impulsionava. Ela se perguntou se a sua própria arte, a sua busca pela beleza e pela verdade, o atraía justamente por ser o oposto do mundo implacável que ele habitava.
O jantar continuou, e a conversa entre eles se tornou mais pessoal, menos formal. Victor perguntou sobre sua arte, sobre suas inspirações, e Clara se surpreendeu ao encontrar-se falando abertamente sobre seus sonhos e suas dificuldades. Ele a ouvia com atenção, fazendo perguntas perspicazes que a faziam pensar em sua arte de uma nova perspectiva.
Em um determinado momento, um dos convidados, um homem de aparência severa e olhar calculista, dirigiu-se a Victor. "Valença, você está apostando alto demais nesse projeto da Clara. Uma artista é um risco, não uma garantia."
Clara sentiu um aperto no peito. Ali estava a dúvida, a desconfiança que ela temia. Victor, no entanto, não demonstrou alteração em seu semblante.
"Eu confio no talento de Clara", disse Victor, a voz firme. "E confio na minha capacidade de transformar esse talento em sucesso. O risco faz parte do jogo." Ele lançou um olhar penetrante para o homem. "E eu sou um jogador que raramente perde."
O homem apenas deu de ombros, um sorriso cínico nos lábios. Clara sentiu um misto de admiração e preocupação. A fé de Victor nela era inabalável, mas ela também via a pressão que ele sofria, as expectativas que recaíam sobre ambos.
Após o jantar, Victor a acompanhou até a porta. A noite estava estrelada, e a brisa fresca acariciava seus rostos.
"Obrigada pela noite, Victor", disse Clara, sentindo uma gratidão genuína. "Foi... esclarecedor."
Victor a observou, um sorriso suave em seus lábios. "Esclarecedor? Ou talvez... perturbador?"
Clara riu levemente. "Um pouco dos dois." Ela hesitou, sentindo a necessidade de perguntar algo que a incomodava. "Victor, por que eu? Por que investir tanto em mim?"
Ele a segurou suavemente pelo braço, seus olhos azuis penetrantes fixos nos dela. "Porque você é uma força da natureza, Clara. E eu, por mais que tente ser um homem de lógica e razão, ainda sou atraído pelo caos, pela paixão que você exala. Você me lembra que a vida não se trata apenas de números e estratégias. Trata-se de criar algo que dure, algo que toque as pessoas." Ele aproximou o rosto do dela. "E, admito, você é a mulher mais linda que já vi."
O coração de Clara disparou. As palavras dele eram perigosas, sedutoras. Ela sabia que ele estava jogando um jogo complexo, e ela estava sendo arrastada para ele. Mas, naquele momento, a atração era avassaladora.
"Victor...", sussurrou ela, sem saber o que dizer.
Ele se inclinou e depositou um beijo suave em seus lábios. Não foi um beijo de paixão avassaladora, mas sim um beijo gentil, de promessa. Um beijo que dizia mais sobre o desejo contido do que sobre a entrega total.
"Eu vou te ligar amanhã", disse ele, a voz rouca. "Temos muito trabalho a fazer."
Ele se afastou, deixando Clara parada na porta, o coração batendo forte, a mente em turbilhão. O jantar de negócios havia sido muito mais do que apenas um evento social. Era um jogo de poder, um teste de confiança, e um vislumbre do mundo complexo e perigoso de Victor Valença. E Clara, para seu espanto, estava começando a gostar de jogar.