O Coração da Senzala
Capítulo 13 — O Roubo da Alma
por Henrique Pinto
Capítulo 13 — O Roubo da Alma
O peso da desconfiança pairava sobre a fazenda como uma névoa densa e sufocante. Izabel sentia os olhares sobre si, cada vez mais frequentes, carregados de malícia e de especulação. Dona Clara, com sua sagacidade aguçada, parecia saborear cada indício de desgraça que se aproximava, enquanto Zefa observava Izabel com uma mistura de pena e temor. O Capitão André, por sua vez, tornara-se mais discreto, os encontros com Izabel mais raros e carregados de uma tensão que misturava desejo e o medo iminente da descoberta.
Uma tarde, enquanto Izabel colhia ervas medicinais nos arredores da mata, um vulto surgiu de entre as árvores. Não era André. Era o Coronel Silveira, acompanhado por dois capatazes de semblante sombrio. O coração de Izabel disparou, uma onda de pânico gelado a invadindo.
“O que fazes aqui, escrava?” a voz do Coronel era áspera, desprovida de qualquer simpatia. “Passeando em vez de estar a trabalhar?”
Izabel abaixou a cabeça, as mãos tremendo. “Buscava ervas para a cozinha, senhor. Dona Clara me pediu.”
“Dona Clara,” o Coronel zombou. “Ou talvez buscavas um encontro secreto? Ouvi dizeres que tens um certo… apreço pelo meu Capitão André.”
As palavras dele caíram como pedras sobre Izabel. Ela sentiu o rosto corar violentamente, o constrangimento misturando-se ao medo.
“Não, senhor. Jamais.”
Um dos capatazes, um homem corpulento com cicatrizes no rosto, riu baixinho. “Com essa carinha de anjo, quem diria que escondia tais desejos?”
O Coronel ignorou o capataz e aproximou-se de Izabel, seus olhos pequenos e cruéis examinando-a de cima a baixo. “O Capitão André é um homem de valor, escrava. E eu não permito que o meu gado se misture com a minha propriedade. Entendeste?”
Izabel sentiu uma humilhação profunda. Ser comparada a gado, ser objeto de tal escrutínio… era como se sua alma fosse roubada, exposta à luz cruel da opressão. Ela apenas conseguiu assentir, incapaz de articular uma palavra.
“Vem,” o Coronel ordenou. “Quero que vás comigo ao casarão. Dona Clara quer ver-te. E eu quero ouvir a tua versão dos factos. Talvez uma pequena punição te ajude a lembrar-te do teu lugar.”
O caminho até o casarão foi o mais longo e tortuoso da vida de Izabel. Cada passo a levava para um abismo de incertezas. Ela sabia que não seria um simples interrogatório. Ela conhecia a crueldade do Coronel, a forma como ele se deleitava em humilhar aqueles que estavam sob seu domínio.
Ao chegar à sala principal do casarão, encontrou Dona Clara sentada em uma poltrona de veludo, um semblante de satisfação velada em seu rosto. O Coronel se sentou em uma cadeira imponente, enquanto os capatazes ficavam em pé, como cães de guarda.
“Então, escrava,” disse o Coronel, com um tom que não admitia réplica. “Diz-me. O que se passa entre ti e o Capitão André?”
Izabel reuniu toda a sua força, a voz embargada pela emoção. “Nada, senhor. Apenas… conversas que tive com ele. Ele sempre foi gentil comigo.”
Dona Clara soltou uma risadinha sarcástica. “Gentil? Ou algo mais? As línguas não mentem, Coronel. Dizem que o Capitão tem passado horas a sós contigo, longe dos olhos de todos.”
“Isso é mentira!” Izabel exclamou, a voz falhando. “Eu jamais… jamais me atreveria a faltar ao respeito ao senhor ou ao Capitão.”
O Coronel levantou uma mão, silenciando-a. “Respeito, dizes? O respeito é demonstrado pela obediência, escrava. E os teus atos demonstram outra coisa. Foste vista com ele, perto do rio, a trocar palavras íntimas. Não me venhas com desculpas esfarrapadas.”
O Coronel levantou-se e andou em volta de Izabel, como um predador a circular a presa. “Sabes o que acontece com escravos que se acham donos de si? Que pensam que podem ter os prazeres dos senhores?”
Izabel fechou os olhos, antecipando o pior. Ela sabia que o beijo, a paixão que sentira, haviam sido roubados dela. Não apenas o momento, mas a inocência, a paz.
“Não vais responder?” O Coronel parou à sua frente. “Então talvez um pouco de dor te traga a memória de volta.”
Ele fez um sinal para um dos capatazes, um homem chamado Tio Juca, conhecido por sua brutalidade. Tio Juca aproximou-se de Izabel, um chicote de couro cru pendurado em sua mão.
“Não, senhor! Por favor!” Izabel implorou, o medo a dominando. “Eu… eu admito. Eu senti algo por ele. Mas foi apenas um momento. Ele foi… ele foi gentil. Eu nunca busquei nada mais.”
As lágrimas rolavam livremente por seu rosto. Ela se sentia encurralada, despojada de tudo. A confissão, mesmo que hesitante, era uma derrota.
O Coronel sorriu, um sorriso cruel e vitorioso. “Ah, então a verdade aparece. Apenas um momento, dizes? Um momento que poderia custar-me a ordem da minha fazenda. Um momento que o Capitão André não deveria ter tido.”
Ele olhou para Dona Clara, que assentiu com satisfação. “Vá, escrava. Volta para a tua senzala. E pensa bem no que aconteceu. A próxima vez, talvez não tenhas a sorte de apenas admitir. Talvez aprendas a pagar com a própria pele.”
Izabel cambaleou para fora do casarão, sentindo o chão tremer sob seus pés. O sol, que antes lhe trazia esperança, agora parecia zombar dela, sua luz fria e implacável. Ela se sentia vazia, como se algo precioso lhe tivesse sido arrancado. Não apenas a dignidade, mas a própria essência de quem ela era. O roubo de sua alma era completo.