O Coração da Senzala

Capítulo 14 — A Fúria da Tempestade

por Henrique Pinto

Capítulo 14 — A Fúria da Tempestade

O silêncio que se seguiu à saída de Izabel do casarão foi quebrado apenas pelo troar distante de um trovão. O céu, antes de um azul límpido, começava a se cobrir de nuvens escuras e ameaçadoras, um reflexo sombrio do tumulto que se instalara no coração da fazenda.

André, que estava em serviço nas terras mais distantes, sentiu um pressentimento sombrio. A notícia de que o Coronel chamara Izabel ao casarão chegou a ele como um raio, trazida por um dos pouquíssimos escravos que ainda ousavam falar com ele. Ele sabia que algo estava errado. A conversa com o Coronel dias antes, a desconfiança que pairava no ar, tudo culminava naquele momento temido.

Montado em seu cavalo, ele galopou de volta para a sede, o coração martelando em um ritmo frenético. A paisagem parecia se distorcer sob a urgência de sua corrida. A cada raio que iluminava o céu, ele via o rosto de Izabel, o medo em seus olhos.

Ao chegar, encontrou a fazenda em um estado de efervescência contida. Os escravos, em seus postos, mas com olhares inquietos. Dona Clara, em sua janela, observando tudo com um sorriso de quem saboreava o drama. E o Coronel Silveira, em sua varanda, com um semblante de autoridade que beirava a crueldade.

André dirigiu-se diretamente ao Coronel, o suor escorrendo por seu rosto, a respiração ofegante.

“Senhor! Fui informado que Izabel foi chamada ao casarão. O que aconteceu?”

O Coronel o encarou, um brilho de triunfo nos olhos. “Ah, Capitão. Chegas tarde. A verdade, por vezes, se revela sem a necessidade de prolongar o espetáculo.”

“Que verdade, senhor?” André insistiu, a voz tensa.

“A verdade de que tua gentileza foi mal interpretada. A verdade de que a escrava Izabel se permitiu fantasiar com um homem de teu calibre. Uma fantasia que, felizmente, foi devidamente repreendida antes que causasse maiores estragos.”

André sentiu o sangue gelar. Repreendida? Ele conhecia a crueldade do Coronel. Izabel estava em perigo.

“Senhor, eu… eu apenas conversei com a moça. Ela é uma alma boa, talvez um pouco ingênua.”

“Ingênua?” O Coronel riu, uma risada seca e desprovida de humor. “Ou talvez apenas astuta. Ela mesma confessou que sentiu algo por ti, Capitão. Algo que a fez esquecer seu lugar. E eu não posso tolerar tal insubordinação. Ela foi devidamente advertida. E tu, Capitão, deverias ter mais cuidado com quem compartilhas teus momentos de lazer.”

A insinuação era clara. O Coronel estava jogando com ele, usando Izabel como peça em seu jogo de poder. A fúria começou a borbulhar dentro de André, uma tempestade que ameaçava romper a represa de sua compostura.

“Senhor, eu juro que não houve nada além de conversas. E se houve alguma mal interpretacão por parte dela, eu me responsabilizo por corrigir. Mas ela não merece qualquer punição por minha causa.”

“Responsabilizas-te?” O Coronel deu um passo à frente, sua voz ganhando um tom ameaçador. “Tu me dizes com quem eu devo ou não devo lidar? Tu, meu capitão, que tens o dever de manter a ordem? Lembra-te, André, quem manda nesta terra sou eu. E a palavra final é minha.”

Dona Clara, observando a cena com um brilho nos olhos, acrescentou com sua voz melosa e traiçoeira: “O Coronel tem razão, Capitão. A moça foi muito imprudente. E tu, por tua vez, deverias ter mais discrição. Essas coisas, quando vistas, criam um mau exemplo para os outros.”

André sentiu-se impotente. Ele estava cercado. A desconfiança do Coronel, a malícia de Dona Clara, a crueldade do sistema que os oprimia. Ele olhou em direção à senzala, onde sabia que Izabel estava agora, talvez chorando, talvez encolhida de medo. A imagem dela em seu estado de vulnerabilidade inflamou sua fúria de forma incontrolável.

“Senhor,” disse André, sua voz agora baixa e carregada de uma ameaça velada que surpreendeu o Coronel. “Eu aceito a tua palavra de que ela foi advertida. Mas se algo mais lhe acontecer, se ela for tocada por um chicote por minha causa, eu não me responsabilizo por minhas ações.”

O Coronel o encarou, surpreso pela audácia. Um lampejo de raiva cruzou seu rosto. “Estás a me ameaçar, Capitão?”

“Estou a alertar, senhor. Há limites que, uma vez cruzados, geram consequências imprevisíveis.”

Sem esperar por uma resposta, André se virou e montou em seu cavalo, o animal relinchando com a energia contida de seu cavaleiro. Ele galopou para longe do casarão, em direção à senzala. A tempestade no céu parecia imitar a tempestade em seu peito.

Ao chegar à frente da senzala, ele desceu do cavalo e entrou sem hesitar. Os escravos o olharam com espanto. Ele a procurou com os olhos e a encontrou em um canto escuro, encolhida, o rosto marcado pelas lágrimas.

“Izabel,” ele disse, a voz suave, mas firme.

Ela ergueu os olhos, assustada.

“Não chore,” ele pediu. “Eu não vou deixar que te machuquem mais.”

Ele se ajoelhou ao lado dela. “O Coronel e Dona Clara… eles sabem. Ou suspeitam. E o Coronel está furioso. Eu não posso protegê-la aqui, Izabel. Não mais.”

O desespero tomou conta de Izabel. “O que vais fazer?”

“Eu vou para a vila. Vou falar com o Juiz. Talvez ele possa intervir, garantir que teus direitos sejam respeitados, que não sejas punida injustamente.” Ele segurou as mãos dela, seus olhos fixos nos dela. “Mas isso pode levar tempo. E enquanto isso, tu… tu precisas ser forte. Mais forte do que nunca.”

Ele sentiu um impulso avassalador de abraçá-la, de protegê-la de toda aquela crueldade, mas sabia que qualquer demonstração pública seria desastrosa.

“Eu voltarei, Izabel,” ele prometeu. “Eu te juro.”

Enquanto André cavalgava para longe, a tempestade finalmente desabou sobre a fazenda. Chuva forte e raios cortavam o céu, como se a própria natureza estivesse chorando a injustiça. Izabel observou o vulto de André se perder na escuridão e na chuva torrencial. Ela estava sozinha novamente, mas agora, em meio ao caos e ao medo, uma nova força começava a se formar dentro dela. A força da revolta, alimentada pela fúria da tempestade e pela promessa de um amor que se recusava a ser extinto.

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