O Coração da Senzala

Capítulo 17 — A Brutalidade Inevitável

por Henrique Pinto

Capítulo 17 — A Brutalidade Inevitável

O sol da manhã banhava a fazenda com uma luz implacável, que parecia ironizar a leveza que Clara sentia no peito. A noite com João, o toque, o beijo roubado, tudo isso havia deixado um rastro de esperança e desejo que a fazia se sentir diferente, mais viva, mais real. Mas a realidade da fazenda, com sua cruel rotina de trabalho e seus senhores impiedosos, logo a puxou de volta à terra.

Ao se dirigir para o campo, Clara sentiu o olhar de alguns escravos sobre si, olhares de curiosidade e, em alguns casos, de inveja disfarçada. Ela sabia que a proximidade com João não passava despercebida. Ele, por sua vez, agia com uma cautela estudada, mantendo uma distância profissional durante o dia, mas seus olhos a procuravam constantemente, um olhar que transmitia mais do que mil palavras.

A lavoura de cana era um inferno verde, o suor escorrendo pelo corpo sob o sol escaldante. As mãos de Clara, acostumadas ao corte implacável das folhas, trabalhavam com a eficiência de anos, mas sua mente divagava. Ela pensava em João, em seus braços, em sua voz. A promessa de um futuro, mesmo que incerto, era um bálsamo para sua alma ferida.

De repente, um grito ecoou pelo campo. Não era um grito de dor comum, mas um grito de agonia, de medo puro. Clara levantou a cabeça, o coração disparado. A poucos metros dali, o feitor, um homem corpulento e de semblante severo chamado Matias, arrastava um jovem escravo pela orelha, um chicote estalando no ar.

“Seu desgraçado preguiçoso!”, rugiu Matias, a voz áspera como lixa. “Acha que está aqui para passear? Acha que a vida aqui é um jardim de rosas?”

O jovem, mal se sustentando nas pernas, gemia de dor e medo. Clara reconheceu o rapaz, era Tiago, um dos mais jovens da senzala, ainda não acostumado à brutalidade do trabalho.

“Não, senhor feitor! Eu… eu só…”, ele balbuciou, as palavras presas na garganta.

“Só o quê? Só vai me dar mais trabalho! Moleque insolente!” O chicote estalou novamente, atingindo as costas nuas de Tiago. O grito do rapaz se perdeu no som estridente do chicote e no murmúrio assustado dos outros escravos.

Clara sentiu um nó se formar em seu estômago. Aquela era a realidade. A beleza do nascer do sol, a promessa de um amor, tudo isso podia ser apagado em um instante pela crueldade que reinava naquela fazenda.

João, que estava a alguma distância supervisionando o trabalho, apressou o passo. Seu rosto, antes marcado pela ternura ao olhar para Clara, agora se contorcia em uma máscara de fúria contida.

“Matias!”, ele chamou, a voz firme, mas carregada de um tom de autoridade que fez o feitor parar. “O que está acontecendo aqui?”

Matias virou-se, o chicote ainda em punho. Seu olhar era desafiador. “Este moleque parou de trabalhar, capataz. Está tentando me enganar.”

“Ele é jovem, Matias. Ainda está se acostumando. Um pouco de paciência não faria mal.” João tentou manter a calma, mas a tensão em seus ombros era palpável.

“Paciência?”, Matias riu, um som desagradável. “A única paciência que conheço é a do chicote, capataz. E este moleque vai aprender a ter paciência com a minha vara.”

Ele levantou o chicote novamente, mirando as costas de Tiago. Mas antes que pudesse desferir o golpe, João interveio, colocando-se entre o feitor e o escravo.

“Chega, Matias”, disse João, a voz agora baixa e perigosa. “Eu cuido disso.”

Matias hesitou, encarando João. Ele sabia que João era o capataz, mas também sabia que ele era um homem diferente, um homem que parecia se importar mais com os escravos do que deveria. O olhar de João era frio e determinado, e Matias, apesar de sua brutalidade, sentiu um arrepio.

“Certo, capataz”, disse Matias, com um sorriso sarcástico. “Mas se este moleque voltar a parar, o senhor terá que me dar permissão para ensiná-lo uma lição que ele jamais esquecerá.”

Ele soltou Tiago, que caiu de joelhos, ofegante. Matias se afastou, lançando um olhar de ódio para João e um olhar de desprezo para os escravos.

João se abaixou, ajudando Tiago a se levantar. Seus olhos encontraram os de Clara, e neles havia uma promessa silenciosa de proteção.

“Levante-se, Tiago”, disse João, a voz mais suave agora. “Vá para a sombra um pouco e beba água. Depois volte ao trabalho. E tente não parar mais.”

Tiago, com lágrimas nos olhos, assentiu e se afastou cambaleando. Clara observou a cena, o coração apertado. A intervenção de João, embora corajosa, era um risco. Ele estava se colocando entre os escravos e a violência, e isso poderia custar caro.

Mais tarde, durante uma breve pausa para o almoço, João aproximou-se de Clara, que estava sentada sob a sombra de uma mangueira, comendo seu pedaço de fubá.

“Você está bem?”, ele perguntou, a voz baixa.

“Sim, João. E você? Matias não vai te causar problemas?”

Ele deu de ombros, um gesto que não escondia a preocupação. “Ele não gosta de mim, mas sabe que eu sou o capataz. E sabe que eu não tolero maus-tratos desnecessários. Pelo menos, não para quem trabalha duro.”

“O que ele fez com Tiago foi mais do que desnecessário”, disse Clara, a raiva borbulhando em seu peito.

“Eu sei”, respondeu João, o olhar distante. “Mas é assim que as coisas são aqui, Clara. Não posso mudar tudo de uma vez. Às vezes, tenho que usar a força para evitar uma violência maior.”

Ele se sentou ao lado dela, o ombro roçando o dela. Clara sentiu um arrepio percorrer seu corpo, uma mistura de conforto e apreensão.

“Você é diferente, João”, ela disse, olhando-o nos olhos. “Eu vejo isso.”

“Eu só tento fazer o que é certo, Clara”, ele respondeu, a voz embargada. “Mas às vezes, o certo é tão difícil de alcançar. E o errado é tão… fácil.” Ele a olhou com intensidade. “Como este sentimento que cresce entre nós. É errado, Clara. É proibido. Mas eu não consigo controlá-lo.”

Clara sentiu o calor subir em seu rosto. A vulnerabilidade em seus olhos a desarmava. “Eu também não consigo, João.”

Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar acariciando sua bochecha. “Nós dois estamos em perigo. Se alguém descobrir… E Matias, ele está observando. Ele não confia em mim, Clara. Ele me vê como um risco.”

“Mas nós não fizemos nada de errado”, disse Clara, a voz embargada pela emoção.

“Não aos nossos olhos, Clara”, respondeu João. “Mas para eles, nós somos escrava e capataz. E qualquer coisa que vá além disso é uma afronta. É um crime.”

Ele segurou a mão dela com força. “Precisamos ser cuidadosos. Mais cuidadosos do que nunca. O que aconteceu naquela noite… foi um momento de fraqueza para nós dois. Mas agora temos que ser fortes. Fortes o suficiente para sobreviver a isso.”

Clara assentiu, as lágrimas rolando pelo seu rosto. A brutalidade do feitor havia jogado um balde de água fria em sua felicidade recente. O amor que sentia por João era real, mas a realidade da escravidão era ainda mais cruel. Ela sabia que eles precisariam de toda a força do mundo para navegar naquele mar de perigo, um amor nascido na senzala, um amor que desafiava as correntes e os açoites.

“Eu tenho medo, João”, ela sussurrou.

“Eu também, Clara”, ele respondeu, apertando sua mão. “Mas não vamos deixar o medo nos parar. Vamos lutar. Vamos encontrar um jeito.”

O sol continuava a brilhar implacável, mas para Clara e João, a sombra da brutalidade havia retornado, lançando um véu de perigo sobre o amor que ousavam sentir.

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