O Coração da Senzala

Capítulo 2 — O Peso da Palavra do Comendador

por Henrique Pinto

Capítulo 2 — O Peso da Palavra do Comendador

A fazenda de São Bento, sob o sol inclemente da manhã, transformava-se num formigueiro de corpos em movimento. O capataz, um homem corpulento e de poucas palavras chamado Berto, apressava a todos com gritos roucos e o estalar constante de seu chicote. O cheiro forte e adocicado do café recém-colhido impregnava o ar, misturando-se à poeira que se levantava a cada passo apressado. Para Amaralina, o dia de trabalho no cafezal era um ciclo implacável de esforço físico e vigilância constante. Cada movimento era observado, cada pausa era punida.

Ela trabalhava lado a lado com outras mulheres, os dedos ágeis recolhendo os grãos vermelhos e maduros, descartando aqueles verdes ou doentes. O som das cestas a encher, o murmúrio baixo das conversas em busca de algum consolo, e o rugido intermitente do capataz compunham a sinfonia sombria da lavoura. O suor escorria em seu rosto, molhando suas costas e formando poças em seus pés descalços. A dor nos ombros e nas costas era uma constante, mas Amaralina tentava focar na beleza efêmera de cada grão de café, a promessa de sustento, por mais precário que fosse.

"Apressem-se, desgraçadas!", bradou Berto, aproximando-se de um grupo de mulheres que pareciam ter diminuído o ritmo. "O Comendador quer ver essa produção dobrada até o fim da semana!"

Amaralina baixou a cabeça, concentrando-se em seu trabalho. Ela sabia que qualquer sinal de lentidão atrairia a ira do capataz. O medo era um veneno que corria nas veias de todos ali, um combustível que mantinha a roda da escravidão girando.

De repente, um grito de dor irrompeu do outro lado do campo. Era Iara, a jovem de olhos resignados. Ela tropeçara e deixara cair sua cesta, espalhando os grãos preciosos pela terra. Berto, num instante, estava ao seu lado, o chicote em punho.

"Sua incompetente! Vai recolher tudo isso grão por grão!", rosnou ele, o rosto contraído de fúria.

Amaralina sentiu o sangue gelar. Ela sabia que Iara não podia evitar aquilo, mas o capataz não demonstrava piedade. Antes que o chicote pudesse atingir as costas de Iara, Amaralina, num impulso de coragem que a surpreendeu a si mesma, se interpôs.

"Senhor Berto, por favor!", disse ela, a voz trêmula, mas firme. "Foi um acidente. Eu ajudo a recolher."

Berto virou-se para Amaralina, os olhos faiscando de raiva. Ele a encarou de cima a baixo, como se ela fosse um inseto insignificante.

"Você, preta atrevida! Querendo me dar ordens?", ele cuspia as palavras. "Acha que pode falar comigo?"

"Não, senhor. Apenas... apenas não machuque Iara. Ela não teve culpa."

O chicote de Berto estalou no ar, parando a centímetros do rosto de Amaralina. Ela fechou os olhos, esperando a dor, mas ela não veio. Em vez disso, ouviu a voz grave e autoritária do Comendador Matias, que parecia ter surgido do nada.

"Berto! Que selvageria é essa?", exclamou o Comendador, sua voz ecoando com poder.

O Comendador Matias era um homem de meia-idade, com um rosto marcado pela vaidade e uma barba aparada que não conseguia disfarçar a crueldade em seus olhos. Ele usava roupas finas, evidenciando sua posição de privilégio, e seu semblante era sempre de desagrado, como se o mundo inteiro o ofendesse.

Berto rapidamente baixou o chicote, uma expressão de respeito forçado em seu rosto. "Comendador... essa escrava deixou cair a cesta e...", ele tentou justificar, mas Matias o interrompeu.

"Eu vi o que aconteceu. E vi a sua intenção de castigá-la por um mero tropeço. E vi você, Amaralina, defendendo-a. Algo que não é da sua conta." Matias olhou para Amaralina, uma expressão indecifrável em seu rosto. Ele a observou por um longo momento, e Amaralina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele a conhecia, claro. A tratava com a indiferença usual, mas ali, naquele instante, parecia haver um interesse diferente em seu olhar.

"Levantem-se. E voltem ao trabalho. Sem mais gritos e sem mais espetáculos. Tenho assuntos importantes a tratar com Berto."

As mulheres se apressaram em obedecer, recolhendo os grãos caídos e voltando para suas tarefas. Iara, com os olhos marejados, lançou um olhar de gratidão a Amaralina.

Quando Berto se afastou com o Comendador, Amaralina sentiu um alívio imenso, mas também uma apreensão. O olhar que Matias lhe lançara era perturbador. Ela sabia que ali, naquele mundo de regras cruéis e arbitrárias, um favor podia se transformar em um novo tipo de corrente.

O resto do dia transcorreu sem incidentes maiores, mas a tensão permanecia no ar. Amaralina sentia os olhares de alguns escravizados sobre si, alguns com admiração pela sua coragem, outros com inveja pela proteção recebida. Ela sabia que havia cruzado uma linha tênue, e que o Comendador, em sua autoridade absoluta, poderia decidir seu destino de formas imprevisíveis.

Ao final da tarde, quando o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons alaranjados e roxos, Amaralina foi chamada à casa grande. O coração apertou em seu peito. Era raro ser chamada ali, a não ser para trabalhos pesados de limpeza ou para servir nas refeições.

Ela caminhou com passos lentos e hesitantes até a imponente casa, a estrutura de madeira escura e telhado de barro que contrastava com as senzalas precárias. Ao chegar à porta, foi recebida por uma escrava mais velha, de semblante fechado, que a conduziu para dentro.

A casa era espaçosa, mobiliada com móveis pesados de madeira escura e adornada com objetos que denotavam a riqueza do Comendador. Havia quadros nas paredes, um lustre de cristal pendurado no teto e tapetes grossos cobrindo o chão. Amaralina sentiu-se pequena e insignificante naquele ambiente opulento.

O Comendador Matias estava sentado em uma poltrona de couro, uma taça de vinho na mão. Ele gesticulou para que ela se aproximasse.

"Amaralina, não é?", disse ele, a voz calma, mas com um tom autoritário. "Você demonstrou uma lealdade incomum hoje, defendendo Iara."

"Eu apenas fiz o que achei certo, senhor", respondeu Amaralina, a voz baixa.

"Certo...", ele repetiu, saboreando a palavra. Ele a olhou novamente, com aquele mesmo olhar que a incomodara mais cedo. "Você é uma jovem forte e inteligente. Eu tenho observado você há algum tempo."

Amaralina sentiu um frio percorrer sua espinha. O que ele queria dizer com aquilo?

"Eu preciso de pessoas confiáveis na minha casa. Pessoas que entendam a ordem das coisas. Pessoas que não me causem problemas, mas que também possuam uma certa... desenvoltura." Ele fez uma pausa, tomando um gole de vinho. "Berto é um bruto. Precisa ser mantido na linha. E eu não tenho muito tempo para supervisionar todos os detalhes."

Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para o campo que se estendia para além da casa. "Amanhã, você não irá mais para a lavoura de café. Eu tenho outra tarefa para você. Você será a serva pessoal da minha esposa, Dona Sofia. E, em alguns momentos, ajudará na cozinha e na casa. Isso é uma promoção, Amaralina. Um sinal da minha confiança."

O coração de Amaralina disparou. Ir para a casa grande era um mundo à parte. Menos trabalho braçal, mas também mais vigilância e a presença constante da patroa. Dona Sofia era conhecida por ser uma mulher fria e distante, que raramente saía de seus aposentos.

"Senhor... eu não sei se sou digna de tamanha confiança", gaguejou Amaralina, tentando esconder sua apreensão.

Matias riu, um som seco e sem alegria. "Não me venha com falsa modéstia, garota. Você tem o que é preciso. E eu não erro em meus julgamentos." Ele voltou a olhá-la. "Lembre-se, Amaralina, você está recebendo um favor. Um favor que muitos dariam tudo para ter. Não me decepcione."

Amaralina sentiu o peso da palavra do Comendador cair sobre ela como uma pedra. Era uma promoção, sim. Mas também era uma nova forma de aprisionamento, mais sutil, talvez, mas igualmente sufocante. Ela sabia que teria que ser cuidadosa, muito cuidadosa. A liberdade, mesmo que um vislumbre dela, parecia estar cada vez mais distante, encoberta pela sombra da obrigação e do favor que não pedira. O coração da senzala, por mais que tentasse, parecia estar sendo arrancado de seu lugar de origem.

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