O Último Sertão Cósmico

Capítulo 22 — O Eco nas Ruínas de Xylos

por Alexandre Figueiredo

Capítulo 22 — O Eco nas Ruínas de Xylos

As semanas que se seguiram à perda de Lúcia foram um borrão de dor e trabalho incansável. Davi, agora o capitão indiscutível da Estrela Cadente, mergulhou de cabeça na missão, buscando em cada cálculo, em cada análise de dados, um fragmento de Lúcia, um eco de sua inteligência, uma confirmação de seus objetivos. A tripulação, unida pelo luto e pela necessidade de seguir em frente, trabalhou em sintonia, mas a ausência de Lúcia era um vazio palpável em cada corredor, em cada conversa.

Kiara, em particular, sentia a falta de Lúcia de uma forma profunda. A mentora havia sido uma figura maternal para a engenheira, ensinando-a não apenas sobre a complexidade dos motores de dobra, mas sobre a importância da perseverança, da empatia e da paixão. "Ela me ensinou a ver a beleza nas equações, Davi," Kiara confidenciou uma noite, enquanto revisava os esquemas de navegação. "A não ter medo de questionar. De ir além. Eu sinto falta das nossas discussões sobre a natureza da energia escura, da forma como os olhos dela brilhavam quando ela desvendava um novo mistério."

Davi assentiu, os olhos fixos no console de navegação, onde um mapa estelar detalhado brilhava em tons de azul e prata. "Eu sei. Ela era única. Uma força da natureza." Ele sentia o peso da responsabilidade em seus ombros, a necessidade de honrar Lúcia e completar o que ela havia iniciado. A última informação que Lúcia havia compartilhado antes do sacrifício apontava para um local específico: as ruínas de Xylos, um planeta esquecido há milênios, no setor mais inexplorado da galáxia. Lúcia acreditava que ali jaziam as respostas para a origem da ameaça que os consumia, uma energia sombria que parecia se espalhar como um câncer cósmico, apagando estrelas e civilizações inteiras.

"Estamos nos aproximando, Capitão," Renan anunciou, a voz agora mais confiante, mas ainda com um toque de apreensão. Ele era um piloto talentoso, e a Estrela Cadente parecia responder com mais agilidade sob seu comando, como se a nave também sentisse o peso da missão.

As ruínas de Xylos surgiram na tela principal, um espetáculo sombrio e grandioso. O planeta, outrora um vibrante centro de uma civilização avançada, agora era um cemitério cósmico. Cidades em ruínas se espalhavam por vastas planícies, silhuetas fantasmagóricas contra o céu crepuscular. A atmosfera era carregada de poeira e de uma energia estranha, quase palpável. Lúcia havia mencionado que Xylos fora palco de uma catástrofe antiga, um evento que havia levado à extinção de seus habitantes e, possivelmente, à origem da força que agora os ameaçava.

"Zafir, seus sensores detectaram algo?" Davi perguntou, os olhos fixos nas formações rochosas que se erguiam como esqueletos ancestrais.

Zafir, com sua calma habitual, ajustou os controles em seu painel. "Há leituras de energia anômalas, Davi. Padrões que não se assemelham a nada que tenhamos catalogado antes. Parece um resquício da energia que Lúcia enfrentou." Ele fez uma pausa, seus olhos sábios fixos em um ponto específico do planeta. "E há também sinais de vida. Fracos, mas persistentes."

A notícia de vida em um planeta aparentemente morto surpreendeu a todos. "Vida? Que tipo de vida, Zafir?" Kiara perguntou, franzindo a testa.

"Não consigo determinar a natureza exata. São formas de vida muito primitivas, adaptadas a um ambiente hostil. Mas há algo mais... uma assinatura energética que se assemelha a um fragmento de algo maior. Talvez um eco da própria energia que estamos procurando."

Davi tomou uma decisão. "Vamos descer. Kiara, prepare o módulo de pouso. Renan, mantenha a Estrela Cadente em órbita, pronto para qualquer eventualidade. Zafir, venha comigo."

O módulo de pouso rasgou a atmosfera turva de Xylos, pousando suavemente em uma vasta praça central, cercada por colunas monumentais e edifícios em ruínas que pareciam ter sido esculpidos em obsidiana. O silêncio era opressor, apenas quebrado pelo vento uivante que varria as ruínas, carregando consigo o pó de milênios.

Ao saírem do módulo, a sensação de desolação era avassaladora. A arquitetura era alienígena, mas exalava uma aura de sofisticação e grandiosidade, agora reduzida a escombros. Davi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "O que aconteceu aqui, Zafir?"

"Um evento de proporções cósmicas, Davi. Uma guerra? Um experimento que deu errado? Os vestígios indicam uma liberação massiva de energia, capaz de esterilizar um planeta inteiro." Zafir apontou para um enorme obelisco rachado no centro da praça. "A energia que detecto é mais forte perto dali."

Eles se aproximaram com cautela. Ao tocarem a superfície fria e áspera do obelisco, uma onda de energia sutil percorreu seus corpos. Imagens fragmentadas começaram a surgir em suas mentes: seres altos e esguios, com pele translúcida e olhos que brilhavam com sabedoria; vastas cidades de cristal pulsando com luz; e, por fim, a escuridão. Uma escuridão que consumia, que dilacerava, que apagava tudo em seu caminho.

"Eles... eles criaram algo," Davi sussurrou, a voz rouca. "Algo que saiu de controle."

"Ou algo que eles tentaram deter," Zafir corrigiu, a testa franzida em profunda concentração. "A energia que Lúcia enfrentou... ela é uma manifestação de algo antigo, Davi. Uma força primordial que busca equilíbrio, mas de uma forma destrutiva. Xylos pode ter sido o berço dessa força, ou o local onde ela foi pela primeira vez contida."

De repente, um brilho fraco emergiu de uma fenda no obelisco. Era uma pequena criatura, parecida com um inseto bioluminescente, mas com uma inteligência palpável em seus movimentos. Ela pairou no ar, emitindo um zumbido suave, e começou a se mover em direção a uma estrutura subterrânea parcialmente soterrada.

"Essa é uma das formas de vida que detectei," Zafir disse. "Ela parece estar nos guiando."

Seguindo a criatura, Davi e Zafir desceram por uma passagem estreita, que levava a um complexo subterrâneo. O ar ali era mais denso, carregado de uma energia fria e antiga. As paredes eram cobertas por inscrições em uma língua desconhecida, mas que, de alguma forma, ressoavam com um conhecimento ancestral dentro de Davi. Lúcia havia lhe falado sobre esses ressonâncias, sobre a conexão que alguns seres possuíam com a própria trama do universo.

A criatura os levou a uma câmara central. No centro, repousava um artefato. Era uma esfera de cristal negro, pulsando com uma luz interna fraca e sinistra. A energia que emanava dela era a mesma que Lúcia havia combatido.

"O Coração Negro," Zafir murmurou, reconhecendo a descrição de Lúcia. "O núcleo da energia que chamamos de 'O Vazio'."

"Eles tentaram contê-lo," Davi disse, sentindo a verdade em suas palavras. "Os Xylosianos tentaram aprisionar essa força."

"Mas fracassaram," Zafir acrescentou. "Ou, talvez, sua tentativa de contenção tenha sido o que causou a própria catástrofe. A energia se tornou instável, descontrolada."

Enquanto Davi se aproximava da esfera, sentiu um puxão, uma tentação sombria. A energia do Coração Negro parecia sussurrar promessas de poder, de controle sobre a força que havia matado Lúcia. Ele viu um vislumbre de Lúcia, sorrindo para ele, dizendo: "O poder não é o objetivo, Davi. A sabedoria é."

Ele se afastou, sacudindo a cabeça. "Não podemos destruí-lo, podemos?"

Zafir examinou o artefato com seus sensores. "Acredito que não. Tentar destruí-lo seria como tentar apagar uma estrela. Essa energia é fundamental para o equilíbrio do universo, por mais perigosa que seja. O que precisamos é entendê-la. Controlá-la. E, talvez, usar o conhecimento dos Xylosianos para neutralizar sua influência destrutiva."

De repente, as ruínas acima tremeram. Um alarme soou no comunicador de Davi. "Capitão!" A voz de Kiara era tensa. "Múltiplas assinaturas de energia se aproximando do planeta. Naves não identificadas. E são hostis!"

"O Vazio não está sozinho," Zafir concluiu sombriamente. "Ele tem guardiões."

Davi olhou para o Coração Negro, para as ruínas de Xylos. A missão de Lúcia estava longe de terminar. Na verdade, ela estava apenas começando. O eco de sua luta agora ressoava nas ruínas de um mundo perdido, e ele estava determinado a honrar sua memória, mesmo que isso significasse enfrentar a escuridão que consumiu até mesmo as estrelas.

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