O Último Sertão Cósmico

Capítulo 3 — A Cidade Sussurrante e o Chamado das Ruínas

por Alexandre Figueiredo

Capítulo 3 — A Cidade Sussurrante e o Chamado das Ruínas

A transição da Cúpula de Cristal para a Terra foi abrupta e desorientadora. Elias se viu em um beco escuro e úmido, o cheiro de lixo e esgoto invadindo suas narinas. As luzes de neon piscavam erraticamente, projetando sombras distorcidas sobre os prédios imponentes que se erguiam ao seu redor como gigantes de concreto e aço. A Cúpula, a Terra suspensa no vácuo, tudo havia desaparecido, substituído pela crueza de uma metrópole que parecia ter engolido a própria alma.

Ele ainda vestia o tecido liso e neutro, sentindo-se anacrônico em meio à multidão que se movia apressadamente. Roupas de cores vibrantes, tecidos sintéticos reluzentes, corpos apressados, rostos marcados pela pressa e pela indiferença. O som era ensurdecedor: buzinas impacientes, sirenes distantes, conversas fragmentadas, a música estridente que escapava de estabelecimentos comerciais. Era o oposto do silêncio contemplativo do sertão.

“Onde… onde eu estou agora?” Elias murmurou, sentindo o peso do mundo, não da terra, mas da cidade, cair sobre seus ombros.

A esfera azul, que ele ainda segurava com força, pulsou suavemente em sua mão, como um pequeno coração batendo em seu pulso.

“Você está em Neo-Brasília, a capital do que resta,” a voz mental ressoou, um sussurro familiar em meio ao caos. “Um lugar de extremos. Onde a tecnologia avança enquanto a essência se esvai.”

Neo-Brasília. O nome soava futurístico e melancólico. Elias sabia que a sua terra natal, o sertão, estava cada vez mais esquecida, eclipsada por centros urbanos que prometiam um futuro que ele nunca vislumbrou. Ele sentiu um arrepio. Este era o futuro que os guardiões mencionaram?

Ele precisava encontrar os outros. Mas por onde começar? Onde estavam aqueles que, como ele, haviam sido tocados pela memória cósmica? A cidade parecia um labirinto impenetrável, uma selva de concreto e desilusão.

Enquanto vagava pelas ruas movimentadas, Elias observava as pessoas. Rostos jovens, conectados a implantes cibernéticos que brilhavam sutilmente em suas têmporas, olhos fixos em telas holográficas projetadas no ar. Pessoas mais velhas, com a pele enrugada e um olhar de cansaço, como se tivessem visto demais. Havia uma desconexão palpável, uma solidão em meio à multidão.

Ele parou em frente a um grande painel luminoso que exibia imagens de propagandas cintilantes. Produtos que prometiam felicidade instantânea, tecnologia que simulava emoções, dietas que prometiam longevidade artificial. Elias sentiu um nó na garganta. Era para isso que a humanidade havia lutado? Para trocar a substância pela aparência, a conexão pela simulação?

De repente, uma imagem chamou sua atenção. Não era uma propaganda. Era um anúncio discreto, quase escondido em um canto do painel. Uma ilustração simples, um símbolo que ele não reconheceu de imediato, mas que despertou uma sensação estranha em seu interior. Abaixo do símbolo, um endereço e um horário.

“Um de nós,” a voz mental sussurrou. “O símbolo é a chave. A memória o reconhece.”

Elias sentiu um fio de esperança se esticar em seu peito. Ele memorizou o endereço e o horário. Era em um bairro antigo, distante do centro reluzente, um lugar que, pelas descrições que ele ouvira, era um vestígio do passado, conhecido como as Ruínas Submersas.

Ele se dirigiu para o endereço, pegando um transporte público que deslizava por tubos suspensos, uma engenhoca que o levava através da cidade em alta velocidade. Elias observava o cenário mudar. Os prédios reluzentes foram gradualmente substituídos por estruturas mais antigas, desgastadas pelo tempo e pela poluição. O asfalto rachado deu lugar a canais de água turva que cortavam a cidade, em alguns pontos subindo até os primeiros andares dos edifícios. As Ruínas Submersas. Um nome que parecia uma premonição.

Finalmente, o transporte o deixou perto de um edifício abandonado, com janelas quebradas e uma fachada coberta de musgo e hera. Era ali. O local marcado. Elias sentiu uma mistura de apreensão e excitação. Ele estava prestes a encontrar alguém que compartilhava da sua experiência.

Ele entrou no edifício, o assoalho rangendo sob seus pés. O interior era escuro e empoeirado, iluminado apenas por feixes de luz que penetravam pelas frestas. Havia móveis cobertos por lençóis brancos, como fantasmas congelados no tempo. O silêncio aqui era diferente do sertão. Era um silêncio de abandono, de memórias esquecidas.

Elias seguiu por um corredor estreito, a esfera azul em sua mão guiando-o como uma bússola. Ele parou em frente a uma porta de madeira maciça, com o mesmo símbolo que vira no painel luminoso gravado em seu centro. Ele respirou fundo e bateu.

A porta se abriu lentamente, revelando uma mulher. Ela era jovem, talvez da idade de Elias, com cabelos escuros e longos e olhos profundos, que pareciam carregar uma sabedoria incomum para sua idade. Ela usava um vestido simples, mas com um padrão intrincado que Elias não conseguia decifrar.

“Você veio,” ela disse, sua voz suave, mas firme. Não havia surpresa em seus olhos, apenas um reconhecimento tranquilo.

“É ela, Elias,” a voz mental confirmou. “Isabela. Ela carrega a memória da terra e das águas.”

“Você… você também?” Elias perguntou, sentindo um alívio imenso.

Isabela assentiu, um leve sorriso surgindo em seus lábios. “Eu sinto. A terra me fala. E o mar também. Desde que… desde aquele evento.”

“O evento?” Elias perguntou.

“O tremor,” Isabela respondeu, seus olhos fixos nos dele. “Aquele tremor estranho que fez parte da cidade afundar. Foi quando eu comecei a sentir… tudo isso. As visões. A conexão.”

Elias sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Tremor. Afundar. Coisas que não faziam sentido em sua experiência do sertão. Mas a esfera em sua mão pulsou, e ele sentiu uma ressonância, uma compreensão tácita.

“Eu venho do sertão,” Elias disse, sentindo a necessidade de explicar. “Eu encontrei algo… uma esfera. E fui levado para outro lugar.”

Isabela o olhou com atenção. “Eu também senti. Uma luz. E depois, a escuridão. E acordei aqui, com essa… essa conexão.” Ela ergueu a mão, e Elias viu um pequeno cristal azul incrustado em sua palma, emitindo um brilho fraco.

“Vocês estão conectados pelo mesmo fio,” a voz mental explicou. “A memória ancestral. Isabela sente a terra e as águas. Você sente o céu e o deserto. Juntos, vocês formam um elo mais forte.”

“O que significa tudo isso?” Elias perguntou, olhando para Isabela, para a cidade sombria que os cercava. “O que nós precisamos fazer?”

Isabela suspirou, seu olhar vagando para as janelas quebradas. “Eu não sei ao certo. Mas sinto que algo está vindo. Algo grande. E precisamos estar prontos. Os guardiões disseram que somos os sementes. Mas sementes precisam de solo fértil para crescer. E este solo…” Ela gesticulou para a cidade, para as ruínas. “…não está mais fértil.”

“E onde encontramos esse solo?” Elias perguntou, a voz cheia de uma nova determinação.

Isabela voltou a olhá-lo, seus olhos brilhando com uma intensidade incomum. “Há um lugar. Um lugar que ainda preserva a memória antiga. Um lugar que eles chamam de O Jardim das Origens. Mas é perigoso chegar lá. E não estamos sozinhos nesta busca.”

De repente, um som estridente rompeu o silêncio da sala. Um alarme soou, vindo de fora do edifício. Luzes vermelhas começaram a piscar, lançando um brilho sinistro sobre os rostos de Elias e Isabela.

“Eles nos encontraram,” Isabela sussurrou, a apreensão em sua voz. “Os que não querem que a memória seja redescoberta.”

Elias apertou a esfera em sua mão. A cidade sussurrante, as ruínas submersas, o chamado para um lugar distante. A jornada para encontrar o Jardim das Origens estava apenas começando, e os perigos que os aguardavam eram tão reais quanto a sombra da memória que agora os guiava.

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