O Último Sertão Cósmico
Capítulo 8 — As Montanhas Cinzentas e o Sussurro do Vento Gélido
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 8 — As Montanhas Cinzentas e o Sussurro do Vento Gélido
O ar rarefeito das Montanhas Cinzentas era cortante, um sopro gélido que penetrava até os ossos. Os sóis gêmeos de Xylos, vistos de longe, pareciam meros pontos distantes, incapazes de aquecer a paisagem desolada e rochosa que se estendia até onde a vista alcançava. Cada passo de Elara e Jax era um esforço, a poeira fina e cinzenta que cobria o terreno levantando-se em nuvens a cada movimento, aderindo às suas roupas e armaduras como uma mortalha. O orbe, que Elara carregava em uma bolsa especial presa ao seu cinto, pulsava suavemente, um calor reconfortante contra seu corpo.
"Tem certeza que é por aqui, Kael?", Jax resmungou, ajustando a gola de seu casaco reforçado. Ele sentia o frio de uma forma que não sentia há anos, um lembrete sombrio de que Xylos era um mundo implacável. "Não vejo nada além de pedras e mais pedras."
Elara parou, fechando os olhos por um instante. Ela podia sentir a energia sutil que emanava do orbe, um guia silencioso. Os sussurros da Cidade Sussurrante haviam se transformado em um murmúrio baixo e constante, como o som do vento através de cânions profundos. Era o vento de Xylos, carregado de histórias, mas ali, nas montanhas, parecia mais ancestral, mais puro.
"O orbe está nos guiando", ela respondeu, a voz suave, mas firme. "Kael disse que as Câmaras dos Anciãos estão escondidas. Precisamos ouvir o vento, Jax. Ele nos dirá onde procurar."
Eles estavam em um desfiladeiro estreito, as paredes de rocha negras e imponentes se erguiam como colunas de um templo esquecido. A luz fraca dos sóis gêmeos mal chegava ali, criando um jogo de sombras sinistro. De repente, um silvo agudo ecoou pelo desfiladeiro. Não era um som natural.
Jax levantou sua arma. "O que foi isso?"
Elara olhou para cima, para as bordas escarpadas do desfiladeiro. "Algo está lá em cima."
Das sombras nas rochas, surgiram criaturas. Eram ágeis, com corpos esguios e pelugem escura que se camuflava perfeitamente com a rocha. Seus olhos brilhavam com uma luz fraca e amarelada, e eles se moviam com uma velocidade surpreendente. Eram predadores adaptados àquele ambiente hostil.
"Garras da Montanha", Jax rosnou, reconhecendo as criaturas das lendas locais. "São rápidas e mortais."
As Garras da Montanha desceram em silêncio, transformando o desfiladeiro em um campo de batalha. Jax disparava com precisão, cada raio laser encontrando seu alvo, mas eram muitos, e vinham de todas as direções. Elara desembainhou sua espada, a lâmina de energia cortando o ar com um zumbido ameaçador.
Ela se movia com uma agilidade recém-descoberta, uma fluidez que parecia vir de dentro. Cada golpe era preciso, cada defesa era instintiva. A conexão com o orbe parecia amplificar seus sentidos, permitindo que ela antecipasse os movimentos das criaturas. Ela sentia a poeira cintilante em suas veias, um calor que a protegia do frio e lhe dava força.
Uma das Garras da Montanha saltou em direção a Jax por trás. Elara girou, a espada encontrando a criatura no ar, cortando-a ao meio com um brilho ofuscante. Jax a olhou, surpreso.
"Você está se movendo de um jeito diferente, Elara", ele disse, recuperando o fôlego.
"A poeira… o orbe… eles estão me mudando", ela respondeu, ofegante.
A luta continuou por alguns minutos agonizantes, até que as Garras da Montanha restantes, vendo que não teriam presa fácil, recuaram para as sombras, desaparecendo tão silenciosamente quanto surgiram. O desfiladeiro voltou a ser dominado pelo silêncio e pelo sussurro do vento.
"Sobrevivemos", Jax disse, limpando o suor frio de sua testa. "Por enquanto."
Elara sentiu a presença do orbe pulsando em sua bolsa. O evento parecia ter despertado algo nele, pois a pulsação se tornou mais forte, mais rítmica.
"O vento… está falando", ela murmurou, ouvindo atentamente. "Kael estava certo. Há um caminho oculto."
Ela seguiu a sensação, o orbe parecendo vibrar em uma direção específica. Ela os levou para uma parede de rocha que parecia intransponível. No entanto, ao se aproximar, ela notou uma série de entalhes na pedra, quase imperceptíveis sob a camada de poeira. Eram símbolos antigos, diferentes dos encontrados na Cidade Sussurrante, mais abstratos, mais cósmicos.
"São os símbolos das Câmaras dos Anciãos", ela disse, reconhecendo-os vagamente de vislumbres em sua memória, ou talvez de algo que Kael lhe mostrara.
Ela passou as mãos sobre os símbolos, sentindo a frieza da pedra. De repente, um dos símbolos emitiu um leve brilho azulado. Era um mecanismo, ativado pelo toque. Com um rangido profundo, uma seção da parede de rocha começou a se mover, revelando uma passagem escura e estreita.
"Eu sabia que havia algo aqui", Jax disse, com um sorriso cansado.
Eles entraram. A passagem descia em espiral para as profundezas da montanha. O ar ficou mais frio, mas a sensação opressora de desolação deu lugar a uma atmosfera de reverência. As paredes da passagem eram cobertas por cristais que emitiam uma luz suave e azulada, iluminando o caminho. Era como entrar em um sonho geológico.
"O que é este lugar?", Jax perguntou, maravilhado.
"Câmaras dos Anciãos", Elara respondeu, a voz ecoando suavemente. "Ou pelo menos, a entrada para elas."
O corredor se abriu em uma vasta caverna subterrânea. O teto se perdia nas alturas, adornado por formações de cristal que pareciam estrelas distantes. No centro da caverna, um grande lago de água límpida refletia a luz dos cristais, criando um espetáculo de tirar o fôlego. E nas margens do lago, cercados por formações rochosas que pareciam tronos, estavam os "Anciãos".
Eles não eram seres vivos, mas esculturas de pedra, esculpidas em formas humanoides, mas com características etéreas, como se tivessem sido moldadas pelo próprio vento estelar. Em suas mãos, cada Ancião segurava um cristal, e cada cristal pulsava com uma luz diferente, em uma sinfonia silenciosa de cores.
Elara sentiu uma forte conexão com aquele lugar. A poeira cintilante no ar parecia vibrar em harmonia com o orbe em sua bolsa. Ela se aproximou de um dos Anciãos, a luz do cristal em sua mão iluminando seu rosto empoeirado.
"Eles preservaram o conhecimento", ela sussurrou. "A memória de Xylos antes da Queda."
Jax olhou em volta, impressionado. "Isso é incrível. Como ninguém nunca descobriu isso?"
"O caminho foi escondido. O conhecimento, selado", Elara respondeu. "A Memória Primordial protege isso, mas também é um lembrete do que foi perdido. Talvez a própria natureza do lugar seja um escudo."
Ela se aproximou do centro da caverna, onde um pedestal de pedra negra se erguia, vazio. O orbe em sua bolsa começou a pulsar com mais intensidade, como se estivesse chamando por aquele lugar.
"Acho que o orbe pertence aqui", ela disse. "Ele é a chave para desbloquear as memórias."
Com cuidado, ela retirou o orbe da bolsa. Ao removê-lo, sentiu uma leveza repentina, mas também uma sensação de perda, como se uma parte de si estivesse sendo deixada para trás. Ela colocou o orbe no pedestal.
No momento em que o orbe tocou a pedra, os cristais nas mãos dos Anciãos começaram a brilhar mais intensamente. Os pulsos de luz se tornaram mais rápidos, mais fortes, e o lago subterrâneo começou a ondular, emitindo um brilho etéreo. Os sussurros do vento nas montanhas ecoaram na caverna, mas agora, pareciam ter uma nova clareza, uma nova melodia.
Fragmentos de imagens começaram a se formar no ar acima do orbe e do lago: vislumbres de Xylos como era antes da Queda. Cidades brilhantes sob céus estrelados, naves majestosas viajando entre os mundos, seres de luz interagindo com os habitantes de Xylos. Era a história de Xylos, a história do seu passado cósmico, sendo recontada.
Elara observou, fascinada. Ela viu cenas de seus pais, não como ela os vira em seus fragmentos de memória, mas jovens, cheios de esperança, participando de rituais de conexão estelar. Eles não eram apenas guardiões, mas parte de uma civilização que abraçava o universo.
"Eles eram… viajantes", Elara sussurrou, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. "Eles não fugiram. Eles estavam explorando. E então… a Queda aconteceu."
A visão se intensificou. Ela viu o momento exato da Queda. Não foi uma guerra, mas um evento cósmico, uma ruptura na própria estrutura do espaço-tempo que isolou Xylos do resto da galáxia. A energia que fluiu da ruptura foi devastadora, apagando a maior parte do conhecimento e da conexão que Xylos possuía.
"É por isso que a memória foi apagada", Jax disse, a voz cheia de admiração e tristeza. "Foi um trauma tão grande que o próprio planeta se fechou."
A visão começou a se dissipar, os fragmentos de memória voltando para o orbe e para o lago. O brilho dos cristais diminuiu, e os sussurros do vento voltaram ao seu murmúrio familiar. O orbe continuava a pulsar suavemente no pedestal.
"O que aconteceu?", Elara perguntou, desapontada. "Por que parou?"
"A memória foi revelada, mas o conhecimento… o conhecimento ainda está fragmentado", Jax observou.
Elara sentiu a presença do orbe em sua bolsa novamente, como se ele quisesse retornar. Ela o pegou do pedestal. A energia que ela sentira antes estava mais forte agora, mais focada.
"Não parou", ela disse, um leve sorriso surgindo em seus lábios. "Apenas… mudou. Eu não preciso mais ver as imagens. Eu sinto. Sinto a conexão. A poeira estelar em mim… ela ressoa com isso."
Ela olhou para os Anciãos, para os cristais que ainda emitiam um brilho suave. "Eles são os guardiões do conhecimento. Mas a chave para acessá-lo… está dentro de mim agora."
De repente, um som ecoou pelas câmaras. Não era o vento, nem um sussurro. Era um som metálico, estridente, quebrava a tranquilidade do lugar.
"O que foi isso?", Jax perguntou, sua arma em punho novamente.
Sombras começaram a rastejar pelas paredes da caverna, mais escuras do que as sombras naturais. Figuras metálicas, com membros articulados e um brilho sinistro em seus sensores ópticos, começaram a emergir da escuridão. Eram drones de combate, de um modelo que Elara e Jax nunca tinham visto antes.
"Parece que nosso passeio tranquilo acabou", Jax rosnou, sentindo um pressentimento ruim.
Uma dessas figuras metálicas se aproximou de Elara, seu sensor óptico vermelho fixando-se no orbe em suas mãos. Uma voz robótica e fria ecoou: "Protocolo de Recuperação de Artefato Ativado. O artefato é propriedade da Corporação Nova Terra. Entregue o objeto, ou a resistência será eliminada."
"Corporação Nova Terra?", Elara repetiu, confusa e furiosa. "Quem são vocês?"
"Somos a vanguarda da ordem e da expansão", a voz robótica respondeu. "E Xylos será o próximo em nossa coleção."
A descoberta das Câmaras dos Anciãos e a revelação do passado cósmico de Xylos foram interrompidas pela chegada de um novo e perigoso inimigo. O Último Sertão Cósmico não estava apenas esquecido, mas também cobiçado.